Planeje a viagem para não arruinar as finanças

02/06/2017

Compre moeda estrangeira aos poucos e com antecedência, para evitar oscilações bruscas no câmbio

FÉRIAS (FOTO: THINKSTOCK)
FÉRIAS (FOTO: THINKSTOCK)

Organizar uma viagem de última hora pode ser emocionante e render ótimas histórias, mas provavelmente fará um estrago nas suas finanças. Embarcar para um destino requer um esforço que começa meses antes se o objetivo é colecionar boas lembranças, não dívidas. E se a viagem é para o exterior, o ideal é ir comprando moeda estrangeira aos poucos, já que o câmbio pode disparar de repente - semana passada, por exemplo, na ressaca da eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, o dólar comercial saltou 5,01%, e o turismo, 5,87%.

"O que vale é o planejamento antecipado. Para quem vai sair de férias no verão, esses gastos já deveriam estar quitados, aí a preocupação seria aproveitar somente as férias. Tem que estar tudo dentro do orçamento. As contas mensais não vão na mala, mas estarão aguardando o seu retorno", lembra Ricardo Figueiredo, consultor do programa de educação financeira da Fundação Cesp (Funcesp).

Ele ressalta que evitar erros financeiros no planejamento de uma viagem requer uma pesquisa exaustiva, verificando custos de passeios, alimentação e transporte no local de destino. Além disso, é recomendável fazer simulação do preço de passagens em diferentes dias da semana, já que há uma variação de valores de acordo com a procura. Também é o momento de aproveitar a flexibilidade que as férias permitem para viajar em horários em nos quais a demanda de passageiros é menor. O mesmo vale na hora de definir a hospedagem.

Para os gastos no local, a atenção é maior quando o destino é outro país. Deve-se comprar moeda estrangeira aos poucos, a fim de evitar uma disparada de última hora.

"O melhor é fazer a compra parcelada e com antecedência. Assim, evita-se pagar mais caro caso deixe para comprar na véspera da viagem e a cotação tenha oscilado muito, como visto na semana passada", explica Ademar Vitor Pereira Mendes, operador de câmbio da Ourominas.

Divita-se, mesmo convertendo

Quem vai viajar agora e, nos últimos seis meses, comprou um pouco de dólar turismo a cada data de pagamento de salário, no início do mês, pagou uma média de R$ 3,43, sendo que a menor cotação foi de 3,36, e a maior, de R$ 3,65. O desembolso para US$ 1 mil, nesse caso, teria sido de R$ 3.430. Quem tivesse deixado para comprar na última sexta-feira teria desembolsado R$ 3.610 - ou seja, a compra gradual possibilitaria uma economia de R$ 180.

Esses recursos comprados aos poucos podem ser tanto em espécie, em que há a incidência de 1,1% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), ou em cartões de viagem, cujo IOF é de 6,38%, mesma alíquota que incide sobre os gastos no cartão de crédito. Apesar de mais caros, os pré-pagos oferecem uma segurança maior, já que, em caso de perda, alguns emissores enviam uma segunda via do plástico para o destino.

Mesmo as compras a serem feitas nas férias devem ser planejadas com antecedência: é preciso ter em mente o que se deseja, para evitar surpresas desagradáveis. A tentação de usar o cartão de crédito para produtos que são muito mais baratos do que no Brasil pode comprometer a saúde financeira pós-férias. Adotar o mantra "quem converte não se diverte" pode resultar em uma fatura de cartão de crédito impagável na volta da viagem.

É preciso levar em conta ainda que a cotação - e, portanto, o preço final em reais do produto comprado - vai variar entre a data da aquisição e o fechamento da fatura. Ainda sobre viagens ao exterior, é recomendável fazer um seguro viagem, para não ter gastos extras devido a eventuais problemas de saúde.

Para quem vai viajar pelo Brasil, os recursos para os gastos de férias devem ser reservados mensalmente em uma aplicação de elevada liquidez, ou seja, na qual o resgate possa ser feita a qualquer momento.

Família tem que participar

A consultora financeira da Órama Investimentos, Sandra Blanco, recomenda a aplicação em renda fixa, uma vez que os juros ainda estão em patamar elevado - a Selic está em 14% ao ano. Títulos públicos corrigidos pela Selic e certificados de depósito bancário (CDBs) estão entre as opções, assim como os fundos DI, desde que a taxa de administração não supere 0,5%.

"Mesmo que o dinheiro vá ser resgatado antes de seis meses, prazo em que a alíquota do Imposto de Renda é mais elevada, de 22,5% sobre os ganhos, ainda é mais vantajoso que a poupança", explica Sandra.

Carlos Eduardo Costa, consultor de educação financeira do banco Mercantil do Brasil, lembra que é importante que toda a família participe do processo de planejamento das férias. No caso de um casal com filhos, por exemplo, é importante determinar e explicar a eles que há um limite diário para os gastos.

"Quando se planeja em família, antes de viajar, é preciso determinar qual será o gasto por dia. Deixando isso claro com antecedência, evitam-se discussões ao longo da viagem. Há muita informação gratuita disponível sobre diversos destinos", reforça o consultor.

Nesse planejamento, Costa recomenda verificar os dias e horários em que as atrações turísticas são mais em conta. Em muitas cidades, principalmente no exterior, é possível adquirir passes válidos por um número determinado de dias para visitar museus, o que pode representar uma economia. O mesmo vale para o transporte público.

Fernando Marcondes, planejador financeiro da consultoria financeira GGR Investimentos, observa que a falta de cultura do brasileiro em planejar o orçamento faz com que, muitas vezes, ele gaste mais que o necessário. Para ele, quanto mais antecedência, melhor: "Quem começa a economizar um ano antes, mesmo que não tenha certeza do destino de férias, pode negociar descontos, por ter o dinheiro de forma antecipada".

Caso não seja possível poupar todo o dinheiro necessário, Marcondes recomenda optar por outro destino ou adiar a viagem. Tomar um empréstimo ou entrar no rotativo do cartão estão fora de cogitação. "Se não couber no orçamento, a opção é adiar ou ir para um destino mais em conta. Você até pode adiar um prazer para poupar mais, mas não vai pagar juros", ressalta.

Publicado originalmente em: http://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2016/11/planeje-viagem-para-nao-arruinar-financas.html  Acesso em 02/06/2017