Brasileira viaja sozinha de bike pela América do Sul

22/11/2016

E a nossa série de entrevistas com pessoas inspiradoras continua. Procuramos sempre conversar com gente que gosta de viagem e segue em busca da realização do seu sonho, já conversamos com uma galera pegando carona, viajando de avião, de barco, de mochila... tanta gente bacana e que tem muito a nos ensinar.

Essa semana conversamos com a Carol Emboava do Projeto Girámerica - ela está viajando sozinha a América do Sul, percorrendo de bike por terrenos que nós do projeto Outsiders Brazil passamos de carro e achamos loucura: longos desertos, calor batendo recorde, noites com temperaturas abaixo de zero e lugares completamente remotos.

Nós acompanhamos a história da Carol já faz muito tempo e aprendemos muito com ela, seu jeito batalhadora, a leveza como encara os desafios e a alegria de simplesmente ser. Se você ainda não conhece essa guerreira leia aqui alguns trechos da nossa conversa e se apaixone por ela você também.

Carol, como surgiu a ideia de viajar pela América do Sul de bike? E como você se preparou para ela?

A ideia de viajar de bike surgiu numa época que eu estava em um momento de transição na minha vida, mudança de trabalho, cidade. Achei que me faria bem um ano sabático antes de me jogar de cabeça nisso tudo. Tirei os planos que estavam engavetados há mais de 10 anos e comecei a planejar. No fim das contas a viagem já se estendeu por 3 anos e não tem data pra acabar.

A preparação foi dividida em 3 partes. Física, psicológica e financeira. A primeira foi a única que não segui muito a risca. Usava a bike como meio de transporte na minha cidade e às vezes no final de semana saia para um pedal mais longo. Fui contra todas as recomendações de testar os equipamentos e fazer viagens mais curtas antes de partir.

A preparação psicológica talvez seja a mais difícil. Desapegar aos pouquinhos de tudo que nos é tão familiar não é das tarefas mais fáceis. Mas sempre foquei no meu sonho e com isso o apego diminuía, porque sabia que coisas lindas estariam por vir. E não estava enganada.

Já a parte financeira requer muito mais disciplina do que eu imaginava. Você tem que abrir mão de muita coisa se quer fazer uma viagem longa. Aquela viagem com os amigos no feriado, uma roupa nova que no fim você não vai levar nem usar por vários meses, um jantarzinho aqui, um cinema ali. Virei a pão-dura da turma. Mas todos entendiam que era por algo maior e muitas vezes até mudaram os planos para aproveitarmos todos juntos.

O que você aprendeu sobre você mesma nessa jornada que ainda nāo havia notado?

Costumo dizer que aprendi em 3 anos o que levaria uma vida inteira para entender. Viajar sozinha é uma experiência ímpar e intensa. Descobri que posso chegar onde eu quiser com minhas próprias pernas, que o perigo está muito mais na nossa mente do que ao nosso redor, que existem mais pessoas dispostas a ajudar do que a te fazer mal. Aprendi a administrar muito melhor meu dinheiro e a agradecer pelas pequenas coisas mais do que reclamar. Mas acredito que o mais importante que descobri é que meu corpo vai até onde minha mente me leva. Muitas vezes me sentia cansada fisicamente, mas o psicológico me empurrava. E também já aconteceu o contrário, de me sentir bem fisicamente, mas não conseguir pedalar mais de 15km porque a cabeça não ajudava. Os únicos limites foram impostos pela minha mente, aí eu descobri que sou muito mais forte do que imaginava.

Quais são suas motivaçōes? O que te faz levantar do saco de dormir para pedalar quilômetros debaixo de sol ou chuva?

Eu me motivo com o novo, com a falta de rotina. Adoro acordar, sair pra pedalar e não ter ideia do que vai acontecer no meu dia, quem vou conhecer pelo caminho, onde vou dormir. Todos os dias na estrada são uma surpresa e para mim não existe motivação maior que isso. Tenho sede de conhecer, aprender e viver coisas novas.

Conta um pouquinho sobre a sua experiência viajando sozinha. Como é passar tanto tempo com você mesma? Já sofreu algum tipo de assédio ou abuso?

Minha experiência viajando sozinha não poderia ser melhor. Eu adoro a minha companhia, canto enquanto pedalo, converso e rio comigo mesma. Acredito que esse seja um ponto importante pra quem quer se aventurar numa viagem solo, curtir sua própria companhia e não ter medo do silêncio. As vezes ele pode assustar. Eu gosto de ser dona do meu próprio destino e não existe forma melhor de exercer isso do que viajando sozinha. Se gosto de uma cidade posso decidir ficar mais dias do que o planejado, se um lugar super badalado e recomendado não me agradou posso ir embora no dia seguinte e descobrir o próximo ponto. É uma liberdade incrível.

Adoro acampar sozinha, montar minha barraca no final do dia, preparar um café e sentar para ver o sol se pôr e as primeiras estrelas surgirem no céu. Já dormi em posto de gasolina, na beira de rios lindos, em quartéis de bombeiro, casa de árvore, estábulo de cavalo, casa de moradores locais por onde passava, em cama quentinha e confortável e em sofá frio e duro, nas estradas da Patagônia e nas areias do Deserto do Atacama. Tudo isso faz com que você valorize muito quando tem um pouco mais de conforto. Sair da caixa custa, mas uma vez lá fora você cresce e se expande tanto que é impossível voltar pro mesmo ponto, pensar como você pensava e agir como você agia antes.

Sobre assédio nunca passei por nada grave. Mas se você é mulher e está lendo isso já sabe como é viver numa sociedade machista, onde os homens acham normal mandar gracejos em alto e bom tom no meio da rua ou assoviar quando você passa. Toda mulher sabe como lidar com isso. É incômodo, sempre. Mas nada nunca passou disso.

Algum momento você pensou em desistir? E como superou isto?

Pensei em desistir um monte de vezes, nem tudo são flores na estrada. Muitas vezes o esforço físico foi tremendo e terminei o dia morta de cansaço. Em outras a saudade apertou, a solidão bateu forte e nem sempre o coração estava preparado para encarar tudo isso. Mas sabia que eram sentimentos passageiros. Quando estamos muito cansados, com fome, sono, dá vontade de chutar o balde e a famosa pergunta "o que é que eu tô fazendo aqui" fica martelando na cabeça. Nessas horas tem que ser forte para focar no objetivo final e saber que um chuveiro quente e uma boa noite de descanso cura quase tudo.

Antes de partir você saiu com algum orçamento? Como você se mantém na estrada em busca da realização deste sonho?

Antes de sair me planejei financeiramente para estar um ano viajando. Somei tudo que tinha, dividi por mês e depois do dia. Esse era meu orçamento diário e sempre fui bem organizada com ele. Se gastava mais num dia, economizava no outro. Como decidi viajar mais de um ano, pra mim a melhor alternativa foi parar em pontos estratégicos, ou seja cidades mais turísticas, e trabalhar. Gosto da experiência de vivenciar a vida local com olhos mais próximos, que não sejam somente de um viajante que passa rápido por ali. Até agora parei por alguns meses em Ushuaia, Santiago do Chile e San Pedro de Atacama. E em todos esses lugares tive experiências incríveis trabalhando com coisas totalmente diferentes da minha profissão, que é a Educação Física. Trabalhei de babá, garçonete, guia de turismo, entre outros que me proporcionaram viver realmente a vida de cada lugar.

Tem alguma coisa que você teria feito de diferente nessa viagem? Algum arrependimento? Um item que teria comprado para ajudar ou algo que trouxe e nunca usou?

No começo da viagem saí com muito mais coisa do que precisava. Mas acredito que isso faz parte da experiência de viajar e não faria diferente. Fui me adaptando ao que era necessário ou não e corri algumas vezes ao correio para enviar alguns itens extras pra casa. Meu lema é "se não usou em 3 semanas não vai usar mais e não vai fazer falta".

Talvez tivesse mudado o ritmo do início. Mas como tinha a meta de viajar 13.000km em um ano acabei "apertando o passo" e ficando pouco tempo em lugares que hoje penso que pediam um pouco mais de calma. Mas tudo isso fez parte do aprendizado de viajar.

O que você diria para alguém que quer viajar hoje mas por algum motivo não vai?

Eu diria que a vida é muito curta pra vivê-la esperando chegar o final de semana ou pra ser feliz só nas férias. Se joga! Que o mundo vai te receber de braços abertos!

O que é felicidade para você?

Felicidade pra mim é descobrir que posso viver com tão pouco e ser tão plena. Há 3 anos tudo que necessito está em cima da minha bicicleta ou dentro do meu coração.

A Carol continua a viagem dela, no momento ela está em Atacama se preparando para mais um desafio: cruzar a Bolívia e seguir até o Peru. Você pode acompanhar a história dela na página do Projeto Girámerica ou pelo podcast do Portal Extremos (você precisa ouvir o episódio #102 quando ela narra em tempo real a sua travessia, super recomendamos!)

Obrigada Carol por compartilhar com a gente lindas palavras e belíssimas fotos!!

8 de julho de 2016 - Por Outsidersbrazil

Publicado originalmente em http://www.outsidersbrazil.com.br/entrevista-carol-giramerica/

Acesso em 16/11/2016 - 23:38

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